sábado, 23 de abril de 2016

Shakespeare - Romeu e Julieta (frag)


           ROMEU:
                    Se a mão indigna profana esta capela,
                    O pecado gentil aí está:
                    Meus lábios peregrinos a mazela
                    De um toque querem com um beijo atenuar.

             JULIETA:
                    Fazeis às vossas mãos um desatino,
                    Se a devoção demonstram por tal meio;
                    Nas mãos das santas toca o peregrino,
                    E palma e palma é o beijo do romeiro.

             ROMEU:
                    Ambos não possuem lábios, igualmente?

              JULIETA:
                    Sim, lábios onde a prece prevaleça.

              ROMEU:
                    Que os lábios, meu anjo, façam justamente
                    O que a mão faz, pra que a fé não enlouqueça.

                 JULIETA:
                    Em mover-se assim a santa não se empenha.

               ROMEU:
                    Então deixai que o meu pedido eu obtenha.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Emil Cioran - Silogismos da amargura (frag)

 É preciso ter a coragem de reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que visivelmente não comporta um. Por outro lado, nem que seja por gosto do paradoxo, podemos ser seduzidos por esse naufrágio, pela amplidão, pelo brilho do nada de tudo o que vive.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Tolstoi - Ana Karenina (frag)

"Querem a todo transe ensinar-nos a viver, eles, que não fazem a mínima ideia do que seja a felicidade. Não sabem que, sem este amor, não haveria para nós nem alegria nem dor neste mundo, a vida deixaria de existir."

domingo, 3 de abril de 2016

Alejandro Zambra - Formas de Voltar Para Casa (frag)

Na época não sabíamos os nomes das árvores ou dos pássaros. Não era necessário. Vivíamos com poucas palavras e era possível responder a todas as perguntas dizendo: não sei. Não achávamos que isso fosse ignorância. Chamávamos de honestidade. Depois aprendemos, pouco a pouco, os matizes. Os nomes das árvores, dos pássaros, dos rios. E decidimos que qualquer frase era melhor que o silêncio. 
Mas sou contra a nostalgia. 
Não, não é verdade. Eu gostaria de ser contra a nostalgia. Para onde quer que eu olhe há alguém renovando votos com o passado. Recordamos canções que na verdade nunca nos agradaram, voltamos a ver as primeiras namoradas, colegas de curso por quem não tínhamos simpatia, saudamos de braços abertos gente que repudiávamos. 
Me assombra a facilidade com que esquecemos o que sentíamos, o que queríamos. A rapidez com que assumimos que agora desejamos ou sentimos algo diferente. E ao mesmo tempo queremos rir das mesmas piadas. Queremos, julgamos ser de novo os meninos abençoados pela penumbra. 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Tolstói - Anna Karenina (frag)

"Toda diversidade, todo encanto, toda beleza da vida se compõe de luzes e de sombras."