domingo, 21 de junho de 2009

Machado de Assis - Manhã de Inverno

Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário.

Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.

Camilo Pessanha - Paisagens de Inverno

I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou! o sol! Volvei, noites de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.
Extintas primaveras evocai-as:
_ Já vai florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias._
Sossegai, esfriai, olhos febris.
_ E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas...Doces vozes senis..._

II

Passou o outono já, já torna o frio...
_ Outono de seu riso magoado.
llgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
_ O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?
Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...
Onde ides a correr, melancolias?
_ E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Francisco Joaquim Bingre - Inverno

Já na quarta estação final da vida
Estou, do triste Inverno rigoroso.
Fustigado do tempo borrascoso,
Co'a saraiva das asas sacudida.

Gelada tenho a fronte encanecida,
O sangue frio, pálido e soroso.
Compresso está o físico nervoso
E a máquina de todo enfraquecida.

Nesta quadra da fúnebre tristeza,
Que alegria terei na sombra escura,
Se enlutada se vê a Natureza?

Só, c'os frutos da má agricultura,
Vago triste no espaço da incerteza
De que a Morte me dê melhor ventura.

Solstício de Inverno

Em Astronomia, o Solstício de Inverno é o momento em que a Terra está naquele ponto da sua órbita onde um dos pólos da Terra está mais afastado do Sol . Ocorre, no hemisfério norte, em 21 de Dezembro ou em 22 de Dezembro e no hemisfério sul em 21 de Junho ou em 22 de Junho.

O solstício de Inverno é o primeiro dia de Inverno. No calendário chinês, por exemplo, o solstício de Inverno chama-se dong zhi (chegada do Inverno) e é considerado uma data de importância extrema, visto ser aí festejada a passagem de ano. É também nesta data que se celebra o Sabbat Neopagão Yule.

sábado, 20 de junho de 2009

Sonho de uma noite de verão

“Como é diversa a felicidade dos mortais!” Shakespeare

Se eu pudesse consolar a folha
que caiu do topo da mais alta árvore...
Se eu pudesse controlar o tempo
que voou por entre as margens...
Se eu pudesse consertar o mundo
que se desfez no fim do outono...

Mas o inverno virá, e será triste,
e será vazio de sentido e vida...
pois o calor do sonho já não existe.
E no escuro minh'alma anda perdida...

Se a historia fosse outra, e a noite
não trouxe tanto medo ao coração...
Se a estrada fosse a certa, e a luz
não iluminasse só o erro cometido então...
Se eu pudesse consertar o mundo inteiro
com um simples sonho de uma noite de verão...

Mas o inverno virá; já é tão tarde...
e nesse vazio de sentido e ilusão,
só restam as sobras do que um dia foi verdade,
e minh'alma em completa solidão.


J.A.Cabral 06/09