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domingo, 29 de abril de 2012

Pedro Homem de Mello - Cabra-Cega

À volta de incerto fogo 
Brincaram as minhas mãos. 
... E foi a vida o seu jogo! 

Julguei possuir estrelas 
Só por vê-las. 
Ai! Como estrelas andaram 
Misteriosas e distantes 
As almas que me encantaram 
Por instantes! 

Em ritmo discreto, brando, 
Fui brincando, fui brincando 
Com o amor, com a vaidade... 

— E a que sentimentos vãos 
Fiquei devendo talvez 
A minha felicidade! 

Pedro Homem de Mello, in "Jardins Suspensos"

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Pedro Homem de Mello - Eternidade

A minha eternidade neste mundo 
Sejam vinte anos só, depois da morte! 
O vento, eles passados, que, enfim, corte 
A flor que no jardim plantei tão fundo. 

As minhas cartas leia-as quem quiser! 
Torne-se público o meu pensamento! 
E a terra a que chamei — minha mulher — 
A outros dê seu lábio sumarento! 

A outros abra as fontes do prazer 
E teça o leito em pétalas e lume! 
A outros dê seus frutos a comer 
E em cada noite a outros dê perfume! 

O globo tem dois pólos: Ontem e hoje. 
Dizemos só: — Meu pai! ou só:— Meu filho! 
O resto é baile que não deixa trilho. 
Rosto sem carne; fixidez que foge. 

Venham beijar-me a campa os que me beijam 
Agora, frágeis, frívolos e humanos! 
Os que me virem, morto, ainda me vejam 
Depois da morte, vivo, ainda vinte anos! 

Nuvem subindo, anis que se evapora... 
Assim um dia passe a minha vida! 
Mas, antes, que uma lágrima sentida 
Traga a certeza de que alguém me chora! 

Adro! Cabanas! Meu cantar do Norte! 
(Negasse eu tudo acreditava em Deus!) 
Não peço mais: — Depois da minha morte 
Haja vinte anos que ainda sejam meus! 

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pedro Homem de Mello - Fui Pedir um Sonho ao Jardim dos Mortos

Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que não.
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.

Os mortos dormiam... Passei-lhes ao lado.
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;
Páginas intactas — um livro fechado
Em cada ataúde.

Ai as pedras raras! As pedras preciosas!
Relâmpagos verdes por baixo do mar!
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas
Que os dedos, já hirtos, teimavam guardar!

Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde estão?
Trago as mãos cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dará flor aos vivos que dizem que não?