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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Sófocles - Édipo em Colono (frag)

Quem não se satisfaz com um quinhão 
normal de vida e deseja um maior, 
parece-me em verdade um insensato. 
Dias sem número nunca reservam
a ninguém nada mais que dissabores
 mais próximos da dor que da alegria. 
Quanto aos prazeres, não os discernimos
e nossa vista os buscará em vão 
logo que para nossa desventura 
chegamos ao limite prefixado.
E desde então o nosso alívio 
único será aquele que dará a todos 
o mesmo fim, na hora de chegar 
de súbito o destino procedente 
do tenebroso reino onde não há 
cantos nem liras, onde não há danças 
— ou seja, a Morte, epílogo de tudo. 
Melhor seria não haver nascido; 
como segunda escolha bom seria 
voltar logo depois de ver a luz 
à mesma região de onde se veio.
Desde o momento em que nos abandona 
a juventude, levando consigo 
a inconsciência fácil dessa idade, 
que dor não nos atinge de algum modo? 
Que sofrimentos nos serão poupados? 
Rixas, rivalidades, mortandade, 
lutas, inveja, e como mal dos males 
a velhice execrável, impotente, 
insociável, inimiga, enfim, 
 na qual se juntam todas as desditas.
Não é apenas meu esse destino. 
Vede este infortunado semelhante 
a um promontório defrontando o norte, 
açoitado em todas as direções
por altas ondas e duras tormentas. 
Este infeliz também é flagelado 
sem tréguas por desventuras horríveis, 
como se fossem vagalhões, uns vindos 
lá do Poente, outros lá do Levante, 
outros lá de onde o sol lança seus raios 
ao meio-dia, outros do alto Ripeu 
sempre coberto pela noite escura.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Sófocles - Antígona (tradução do Millôr )

tradução do Millôr

Prólogo

Ao cidadão grego
Na platéia
O que lhe importava
Ao sentar de novo para ouvir de novo
Não era a velha lenda:
Era a palavra nova do poeta.

Colocando o cidadão de hoje
Atento aí, à espera,
Em pé de igualdade com o ateniense
De faz tantos séculos
Lhe damos um resumo da espantosa história:
Creonte, rei de Tebas,
Vinga-se de Polinices, sobrinho e inimigo.
Antígona, irmã de Polinices,
Enfrenta o rei, é condenada à morte.
Hémon, filho do rei, noivo de Antígona,
Rompe com o pai.

E assim a historia avança,
Em luta fratricida,
Ódio mortal
Violência coletiva,
Tudo pago por fim, naturalmente,
Com a escravidão do povo,
Na derrota final.

Sabemos bem
Que ninguém aprendeu muito
Com esta história de Sófocles.
Os jornais de hoje mostram
Que os próprios gregos não aprenderam.
E, cansativamente, ela se repetiu
Nos 2.400 anos que passaram:
Ânsia de Brutos, Cruz de Cristo,
Bizâncio Prostituída, Heil Hitler!,
Lumumba esquartejado, Kenya de Kenyata,
Chê nas montanhas.

Há sempre duas faces na mesma moeda
Cara: um herói.
Coroa: um tirano.
Algo mudou, bem sei;
A ambição mudou de traje,
A guerra, de veículo,
O poder, de método.
O mundo girou muito
Mas o homem mudou pouco.

Porém repetir uma história
É nossa profissão, e nossa forma de luta.
Assim, vamos contar de novo
De maneira bem clara
E eis nossa razão:
Ainda não acreditamos que no final
O bem sempre triunfa.
Mas já começamos a crer, emocionados,
Que, no fim, o mal nem sempre vence.
O mais difícil da luta
É descobrir o lado em que lutar.