quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Se...

Se das coisas me separo
e me perco, escapo;
Se os dias não conto,
não meço ou separo;
Se das horas, minutos,
os segundos, descarto
É que o sorriso é lento
e o horror, muito rápido.








Dez de Agosto

Até todas as lágrimas secarem
sem ter o sonho rendido
Até todas as cicatrizes sararem
sem ter o coração partido
Até todos os medos calarem
sem ter o receio escondido
Até lá eu espero ser mais
e não apenas um outro perdido...








segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Benjamin - Como é que a Solidão Hei-de Ir Medindo?

Como é que a solidão hei-de ir medindo? 
desse-me os golpes de uso inda esta dor 
um a um sua nudez a sobrepor 
que o ritmo sem nome a foi vestindo 

mas sofro agora o tempo nu saindo 
numa levada sem nenhum teor 
gasto caudal do meu rio interior 
nem chora o peito por mais gritos vindo 

Quando é que é novo ano na amargura 
quando volto a chegar-me à desventura 
que me faz falta em ocos dias vis. 

ah quando é que arde escura em cores febris 
à testa do ano como a vi na altura 
do agosto em chamas funda cicatriz? 

sábado, 30 de julho de 2011

Rui Knopfli - Quem Somos

Quem somos, senão o que imperfeitamente 
sabemos de um passado de vultos 
mal recortados na neblina opaca, 
imprecisos rostos mentidos nas páginas 
antigas de tomos cujas palavras 

não são, de certo, as proferidas, 
ou reproduzem sequer actos e gestos 
cometidos. Ergue-se a lâmina: 
metal e terra conhecem o sangue 
em fronteiras e destinos pouco 

a pouco corrigidos na memória 
indecifrável das areias. 
A lápide, que nomeia, não descreve 
e a história que o historia, 
eco vário e distorcido, é já 

diversa e a si própria se entretece 
na mortalha de conjecturados perfis. 
Amanhã seremos outros. Por ora 
nada somos senão o imperfeito 
limbo da legenda que seremos. 

Virgínia Woolf - Orlando (frag)

"Terá o dedo da morte de pousar de vez em quando no tumulto da vida para evitar que nos despedace? Tal será nossa condição que devamos receber, diariamente, a morte, em pequenas doses, para prosseguirmos na empresa da vida? E então, que estranhos poderes serão esses que penetram nossos mais secretos caminhos e mudam nossos mais preciosos bens, a despeito da nossa vontade? (...)E, se assim foi, qual a natureza da morte, e qual a natureza da vida?"