Se das coisas me separo
e me perco, escapo;
Se os dias não conto,
não meço ou separo;
Se das horas, minutos,
os segundos, descarto
É que o sorriso é lento
e o horror, muito rápido.
Até todas as lágrimas secarem
sem ter o sonho rendido
Até todas as cicatrizes sararem
sem ter o coração partido
Até todos os medos calarem
sem ter o receio escondido
Até lá eu espero ser mais
e não apenas um outro perdido...
Quem somos, senão o que imperfeitamente sabemos de um passado de vultos mal recortados na neblina opaca, imprecisos rostos mentidos nas páginas antigas de tomos cujas palavras
não são, de certo, as proferidas, ou reproduzem sequer actos e gestos cometidos. Ergue-se a lâmina: metal e terra conhecem o sangue em fronteiras e destinos pouco
a pouco corrigidos na memória indecifrável das areias. A lápide, que nomeia, não descreve e a história que o historia, eco vário e distorcido, é já
diversa e a si própria se entretece na mortalha de conjecturados perfis. Amanhã seremos outros. Por ora nada somos senão o imperfeito limbo da legenda que seremos.
"Terá o dedo da morte de pousar de vez em quando no tumulto da vida para evitar que nos despedace? Tal será nossa condição que devamos receber, diariamente, a morte, em pequenas doses, para prosseguirmos na empresa da vida? E então, que estranhos poderes serão esses que penetram nossos mais secretos caminhos e mudam nossos mais preciosos bens, a despeito da nossa vontade? (...)E, se assim foi, qual a natureza da morte, e qual a natureza da vida?"