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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Alphonsus de Guimaraes - O céu é sempre o mesmo: as nossas almas

O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.

O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.

A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pagem:
Somos felizes só porque morremos.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Especial Alphonsus de Guimarães

"E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Alphonsus de Guimaraens - Biografia

Alphonsus de Guimaraens (Afonso Henriques da Costa Guimaraens), nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894, em sua terra natal. Desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais “Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “A Gazeta”. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro (MG) e, a partir de 1906, Juiz em Mariana (MG), de onde pouco sairia. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em 1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua “Obra Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.

(fonte: Itaú Cultural)

Alphonsus do Guimaraes - Ismália

Quando Ismália enloqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar...

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu,
Refluaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimarães - Cisnes Brancos

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,

Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da Montanha onde mora a tarde.

Ó cisnes brancos, dolorida
Minh’alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.

Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.

Venham as aves agoireiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.

Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob asas,
A alma cheia de ladainhas.

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago da alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem...

Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram no hinos.
Estrelaram-se todos os castelos,
E até nas nuvens repicaram sinos.

Foram-se as brancas horas sem rumo,
Tanto sonhadas! Ainda, ainda
Hoje os meus pobres versos perfumo
Com os beijos santos da tua vinda.

Quando te foste, estalaram cordas
Nos violoncelos e nas harpas...
E anjos disseram: — Não mais acordas,
Lírio nascido nas escarpas!
Sinos dobraram no céu e escuto
Dobres eternos na minha ermida.
E os pobres versos ainda hoje enluto
Com os beijos santos da despedida.

Alphonsus de Guimarães - Árias e Canções

II

A suave castelã das horas mortas

Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,
Brilham do luar à luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatias caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu que nem sei de cor uma só prece!

Pobre alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.

Alphonsus de Guimarães - Ossea Mea

II
Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
de tons marfíneos, de ossatura rica,
pairando no ar, num gesto brando e leve,
que parece ordenar, mas que suplica.


Erguem-se ao longe como se as eleve
alguém que ante os altares sacrifica:
mãos que consagram, mãos que partem breve,
mas cuja sombra nos meus olhos fica...

mãos de esperança para as almas loucas,
brumosas mãos que vêm brancas, distantes,
fechar ao mesmo tempo tantas bocas...

sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
cerrando os olhos das visões defuntas...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Alphonsus de Guimarães - Soneto XLI

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantam esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Alphonsus de Guimarães - Tema Secular

As velhas ilusões são como um bando
De cisnes a vogar em manso lago:
Seguem suaves, silentes; vão sonhando,
Ao condão misterioso de um rei magro...



A tarde é um lírio roxo: o acaso é brando,
E morre à beira-céu , como um afago;
A lua, errante arcanjo miserando,
Ergue-se então com o seu palor pressago...

Há sombras pelos bosques enluarados,
E nos torreões do céu vultos humanos
Envolvem-se em grinaldas de noivados...

Vêm dias, e vêm meses, e vêm anos:
E os cisnes, em casais de bem casados,
Seguem singrando o lago dos enganos...

quinta-feira, 19 de março de 2009

Alphonsus de Guimarães - Soneto IV

Vagueiam suavemente os teus olhares
Pelo amplo céu franjado em linho:
Comprazem-te as visões crepusculares...
Tu és uma ave que perdeu o ninho.

Em que nichos doirados, em que altares
Repoisas, anjo errante, de mansinho?
E penso, ao ver-te envolta em véus de luares,
Que vês no azul o teu caixão de pinho.

És a essência de tudo quanto desce
Do solar das celestes maravilhas...
Harpa dos crentes, cítola da prece...

Lua eterna que não tivesse fases,
Cintilas branca, imaculada brilhas,
E poeiras de astros nas sandálias trazes...