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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Pablo Neruda - NO HAY OLVIDO (SONATA)


Si me preguntáis en dónde he estado
debo decir "Sucede".
Debo de hablar del suelo que oscurecen las piedras,
del río que durando se destruye:
no sé sino las cosas que los pájaros pierden,
el mar dejado atrás, o mi hermana llorando.
Por qué tantas regiones, por qué un día
se junta con un día? Por qué una negra noche
se acumula en la boca? Por qué muertos?


Si me preguntáis de dónde vengo, tengo que conversar con
      cosas rotas,
con utensilios demasiado amargos,
con grandes bestias a menudo podridas
y con mi acongojado corazón.


No son recuerdos los que se han cruzado
ni es la paloma amarillenta que duerme en el olvido,
sino caras con lágrimas,
dedos en la garganta,
y lo que se desploma de las hojas:
la oscuridad de un día transcurrido,
de un día alimentado con nuestra triste sangre.


He aquí violetas, golondrinas,
todo cuanto nos gusta y aparece
en las dulces tarjetas de larga cola
por donde se pasean el tiempo y la dulzura.


Pero no penetremos más allá de esos dientes,
no mordamos las cáscaras que el silencio acumula,
porque no sé qué contestar:
hay tantos muertos,
y tantos malecones que el sol rojo partía,
y tantas cabezas que golpean los buques,
y tantas manos que han encerrado besos,
y tantas cosas que quiero olvidar.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

sábado, 21 de setembro de 2013

Pablo Neruda - Ja és minha

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho. 
Amor, dor, trabalho, devem dormir agora. 
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas 
e junto a mim és pura como âmbar dormido... 
Nenhuma mais, amor, dormira com meus sonhos... 
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo, só tu. 
sempre viva. sempre sol... sempre lua... 
Já tuas mãos abriram os punhos delicados 
e deixaram cair suaves sinais sem rumo... 
teus olhos se fecharam como
duas asas cinzas, enquanto eu sigo a água 
que levas e me leva.
A noite... o mundo... o vento enovelam seu destino, 
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pablo Neruda - Cem sonetos de amor (frag)

Antes de amar-te, amor, nada era meu
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,

tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Pablo Neruda - 20 poemas de amor e uma cação desesperada (poema 10)

10.

Nós perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu À tarde com as mãos unidas
enquanto a noite azul caia sobre o mundo.


Vi, de minha janela,
a festa do poente nos montes distantes.


Às vezes, qual moeda,
se ascendia um pouco de sol em minhas mãos.


Eu te recordava com a alma apertada
por essa tristeza que conheces em mim.


Então, onde estarias?
Junto a que gente?
Dizendo que palavras?
Por que me há de vir todo este amor de um golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?


Caiu o livro que sempre se toma no crepúsculo,
e como um cão ferido tangeu aos pés minha capa.


Sempre, sempre te distancias entre as tardes
até onde o crepúsculo corre apagando as estatuas.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Pablo Neruda - Cem sonetos de amor (frag.)

Não estejas longe de mim um dia que seja, porque, 
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia, 
e estarei à tua espera como nas estações 
quando em algum sitio os comboios adormeceram. 

Não te afastes uma hora porque então 
nessa hora se juntam as gotas da insónia 
e talvez o fumo que anda à procura de casa 
venha matar ainda meu coração perdido. 

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia, 
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem: 
não te vás por um minuto, ó bem-amada, 

porque nesse minuto terás ido tão longe 
que atravessarei a terra inteira perguntando 
se voltarás ou me deixarás morrer. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Pablo Neruda - Para não Deixar de Amar-te Nunca

Saberás que não te amo e que te amo 
pois que de dois modos é a vida, 
a palavra é uma asa do silêncio, 
o fogo tem a sua metade de frio. 

Amo-te para começar a amar-te, 
para recomeçar o infinito 
e para não deixar de amar-te nunca: 
por isso não te amo ainda. 

Amo-te e não te amo como se tivesse 
nas minhas mãos a chave da felicidade 
e um incerto destino infeliz. 

O meu amor tem duas vidas para amar-te. 
Por isso te amo quando não te amo 
e por isso te amo quando te amo. 

domingo, 4 de novembro de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pablo Neruda - O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres, 
tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 
a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 

A minha luta é dura e regresso 
por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 

Meu amor, na hora 
mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 

Perto do mar no outono, 
o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 

Ri-te da noite, 
do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pablo Neruda - frag. de "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

Para o meu coração basta o teu peito, 
para a tua liberdade as minhas asas. 
Da minha boca chegará até ao céu 
o que dormia sobre a tua alma. 

És em ti a ilusão de cada dia. 
Como o orvalho tu chegas às corolas. 
Minas o horizonte com a tua ausência. 
Eternamente em fuga como a onda. 

Eu disse que no vento ias cantando 
como os pinheiros e como os mastros. 
Como eles tu és alta e taciturna. 
E ficas logo triste, como uma viagem. 

Acolhedora como um velho caminho. 
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas. 
Eu acordei e às vezes emigram e fogem 
pássaros que dormiam na tua alma. 


sábado, 11 de dezembro de 2010

Plabo Neruda - Assim é minha vida

Meus deveres 
caminham com meu canto. 
Sou e não sou: 
é esse meu destino. 
Não sou, 
se não acompanho as dores 
dos que sofrem: 
são dores minhas. 
Porque não posso ser 
sem ser de todos, 
de todos os calados 
e oprimidos. 
Venho do povo 
e canto para o povo. 
Minha poesia 
é cântico e castigo. 
Me dizem: 
"Pertences à sombra". 
Talvez, talvez, 
porém na luz caminho. 
Sou o homem 
do pão e do peixe, 
e não me encontrarão 
entre os livros, 
mas com as mulheres 
e os homens: 
eles me ensinaram o infinito

domingo, 22 de agosto de 2010

Neruda - texto

O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?, perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura; e o tempo, entre uvas cor de sangue tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.

domingo, 18 de julho de 2010

Pablo Neruda - In Residência na Terra II

 Há tanta luz sombria no espaço
e tantas dimensões de súbito amarelas,
porque não cai o vento
nem respiram as folhas.

É um domingo detido no mar,
um dia como um navio submerso,
uma gota de tempo que assaltam as escamas
ferozmente vestidas de umidade transparente

Há meses seriamente acumulados numa vestimenta
que queremos cheirar chorando de olhos fechados,
e há anos em um só cego signo da água
depositada e verde,
há a idade que nem os dedos nem a luz apressaram,
muito mais estimável que um leque roto,
muito mais silenciosa que um peixe desenterrado,
há a nupcial idade dos dias dissolvidos
num triste túmulo que os peixes percorrem.

As pétalas do tempo caem imensamente
como vagos guarda-chuvas parecidos com o céu,
crescendo em torno, é apenas
um sino nunca visto,
uma rosa inundada, uma medusa, um longo
latejo quebrantado:

mas não é isso, é algo que toca e gasta apenas,
uma confusa pegada sem som e sem pássaros,
um desvanecimento de perfumes e raças.

O relógio que no campo se estendeu sobre o musgo
e golpeou uma anca com sua elétrica forma
corre destado e ferido debaixo da água temível
que ondula palpitando de correntes centrais.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pablo Neruda - Nasci para Nascer (frag)

"Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, rejeito os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem.
(...)

Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.

De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes... Com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atônitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...

Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias..."

sábado, 5 de setembro de 2009

Pablo Neruda - POEMA XVIII

Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
Não, não se desfia a rede dos anos: não hà rede.
não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a ação, nem o silêncio, nem a virtude:
a vida foi como uma pedra, um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal
que subiu e desceu queimando em teus ossos.

sábado, 29 de novembro de 2008

Pablo Neruda - Quero apenas cinco coisas..

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.